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Como Matar Um Sapo de Lou­ça [III‑A]

Em Con­tra a Demo­cra­cia”, Jason Bren­nan ofe­re­ce-nos a divi­são de um povo em três clas­ses dis­tin­tas: Hob­bits, Hoo­li­gans e Vul­ca­nos. O seu livro, tão pro­vo­ca­dor quan­to reac­ci­o­ná­rio, traz-nos à memó­ria o que Pla­tão diz acer­ca do peri­go da demo­cra­cia: quan­do os igno­ran­tes têm poder, o país der­ra­pa para a tira­nia. Sabe­mos que há toda uma dis­tân­cia entre a demo­cra­cia que Pla­tão viveu e a que se vive ago­ra mas, curi­o­sa­men­te ou não, a solu­ção é a mes­ma para ambos os auto­res: uma sofo­cra­cia que regu­le a von­ta­de popu­lar expres­sa com o objec­ti­vo de fil­trar as más deci­sões de um povo igno­ran­te – um pou­co à seme­lhan­ça do que Mr. Spen­cer e Ste­vens tão bem demons­tram numa das mara­vi­lho­sas cenas em The Remains of the Day” – sob a for­ma da epis­to­cra­cia de David Estlund, pre­fe­ri­da pelo Bren­nan.

1941 Alfred E. Neuman
Alfred E. New­man: ima­gem de 1941 do que viria
a tor­nar-se o íco­ne da MAD. Mais info:
BOY WITH NO BIRTH­DAY TURNS SIXTY.

Bren­nan con­ta com uma eli­te de Vul­ca­nos que tra­ta­rão de fil­trar a von­ta­de popu­lar e impe­dir o aces­so dos igno­ran­tes ao poder, garan­tin­do a exis­tên­cia de uma eli­te tal que, a exis­tir, esta­rá ape­nas inte­res­sa­da no bem comum e não em pre­ser­var a sua con­di­ção. Tal não acon­te­ce. A ver­da­de é que as nos­sas eli­tes são geral­men­te o pro­ble­ma, de for­ma que esta solu­ção ape­nas é con­ve­ni­en­te aos que pode­ri­am subir ao poder, fazen­do o que fizes­sem sem ter de se sub­me­ter à von­ta­de popu­lar. Não é de some­nos impor­tân­cia pen­sar que as nos­sas eli­tes pen­san­tes” da actu­a­li­da­de mais não são do que uma chus­ma de Bren­nans que des­car­tam a Demo­cra­cia e a ves­tem com rou­pa­gens que, se bem obser­va­das, pode­rão cau­sar alguns arrepios.

Bren­nan é sim­bó­li­co do loda­çal em que se move o sapo de lou­ça: a demo­cra­cia não ser­ve, por isso arran­je­mos outra solu­ção; de pre­fe­rên­cia fácil, de pre­fe­rên­cia sal­va­guar­dan­do os inte­res­ses que nos patro­ci­nam, garan­tin­do a toma­da do poder medi­an­te a insa­tis­fa­ção da popu­la­ça que irá cer­ta­men­te atrás de uns quan­tos bitai­tes ditos por um Blockwart qual­quer lá do bur­go. Real­men­te, Hoo­li­gans não fal­tam, qua­se todos eles uma espé­cie de pro­mo­ção dos Hob­bits que subi­ta­men­te ganham cons­ci­ên­cia de clas­se”. E todo este pro­ces­so baseia-se na sim­ples manu­ten­ção da insa­tis­fa­ção ali­a­da à igno­rân­cia, dizen­do umas coi­sas como dita­dor das pes­so­as de bem”, ou eu sou o vos­so homem”, ele­jen­do-se assim o Vul­ca­no de ser­vi­ço que, mais dia, menos dia, colo­ca­rá os seus Hob­bits sob a bota dos Hoo­li­gans numa mui­to carac­te­rís­ti­ca revi­ra­vol­ta auto­ri­tá­ria e repressiva.