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Artes de Titi­vil­lus [1]

Há um sem núme­ro de pos­sí­veis his­tó­ri­as que vou apa­nhan­do no dia-a-dia que pode­ri­am ser trans­for­ma­das em algo que se les­se com algum inte­res­se, sou­bes­se eu fazê-lo. Tenho deze­nas de per­so­na­gens ali­nha­va­das na minha cabe­ça, cada uma delas com os seus dife­ren­tes per­cur­sos mar­ca­dos por amo­res, ódi­os, ou pai­xões das mais sim­ples, como a de ver com­boi­os a pas­sar ou estu­dar o com­por­ta­men­to dos pás­sa­ros na cal­ma­ria entre tem­pes­ta­des, todas elas repre­sen­tan­do a com­ple­xi­da­de de pes­so­as que, embo­ra ine­xis­ten­tes enquan­to indi­ví­duo real, facil­men­te espe­lham tra­ços de gen­te conhe­ci­da e, em últi­mo caso, de mim pró­prio. Deve­ria ser fácil trans­por­tá-las para o papel, mas a rea­li­da­de ensi­nou-me que essa é uma tare­fa para a qual é neces­sá­rio algum génio, mui­to mais do que eu pos­suo, a par de uma resis­tên­cia à frus­tra­ção que o medo do ridí­cu­lo cau­sa, apa­gan­do pará­gra­fo após pará­gra­fo de gon­go­ris­mos fas­ti­di­o­sos. E, enfim, é neces­sá­ria capa­ci­da­de de tra­ba­lho, coi­sa que a mim não me atingiu.

Titivillus

Recor­do-me de escre­ver qua­se inces­san­te­men­te. Peque­nas his­tó­ri­as, notas sobre pes­so­as ou situ­a­ções, ten­ta­ti­vas de poe­ma, ou mes­mo dese­nhos rabis­ca­dos em qual­quer supor­te que encon­tras­se, fos­se um guar­da­na­po de papel ou uma car­tei­ra de fós­fo­ros, uma espé­cie de rotei­ro de um fil­me que ia fazen­do des­de que come­cei a tra­ba­lhar no Por­to. A gave­ta da minha secre­tá­ria tinha guar­da­dos, jun­ta­men­te com uma colec­ção de bilhe­tes de con­cer­to que diria bem reche­a­da – e como eram boni­tos os bilhe­tes des­sa altu­ra – umas cen­te­nas de papeis sol­tos e uns quan­tos cader­nos de notas, todos eles fei­tos de 8086, altu­ra em que embar­quei no com­boio da tro­pa. Fei­tos, por­tan­to, no ful­gor da ado­les­cên­cia, o que tal­vez fos­sem dia­man­tes em bru­to. Quan­do regres­sei, ano e meio depois, a secre­tá­ria ain­da lá esta­va, a pape­la­da é que não. Dei­tei tudo fora, aqui­lo era só lixo”, foi a res­pos­ta do novo ocu­pan­te da mesa, res­pos­ta que pro­va­vel­men­te ditou esta minha mania de escre­ver e apagar.

Con­ti­nuo a escre­ver as coi­sas que me apa­re­cem e, com paci­ên­cia, até as publi­co nes­te espa­ço. Mui­tas vezes tenho con­fes­sa­do essa espé­cie de nar­ci­sis­mo que faz com que pen­se que as pala­vras que escre­vo pode­rão ser lidas como entre­te­ni­men­to, poden­do mes­mo che­gar a cau­sar efei­to em alguém que as leia – se não cau­sa­rem, de que ser­vem? Mas a ver­da­de é que con­ti­nuo a guar­dá-las numa gave­ta que, como esta, é regu­lar­men­te esva­zi­a­da. Não sou, não serei nun­ca, como os que admi­ro, os que escre­vem para serem lidos ou não, mas que o fazem sem­pre, sem medos, sem rodei­os, e que guar­dam essas impres­sões como se guar­da a vida pas­sa­da que, sem esses regis­tos, anos depois nada mais será do que uma nar­ra­ti­va ao sabor da con­ve­ni­ên­cia do autor. Pode­ria aca­bar este pará­gra­fo, o ter­cei­ro que dese­jo últi­mo de um tex­to que já vai lon­go para a mai­o­ria das paci­ên­ci­as e boas von­ta­des, dizen­do que des­ta é que é, des­ta é que sai blog. Mas conhe­ço-me bem. Não apos­to nisso.